Diário de Bordo nº 3: Disputa de atenção

Este é o terceiro diário. Vale o aviso de sempre: o que escrevo são observações de quem esteve na rua e hipóteses que ainda estou testando. Não há rigor científico aqui. Não medi o uso de celular e não fiz nenhuma pesquisa sobre atenção. Falo do que senti ao me apresentar.

O que mudou na rua

Quando escrevi o projeto, eu pensava no palhaço de rua como alguém que disputa atenção com o barulho da cidade, com o trânsito, com o comércio. Durante as práticas, tive a impressão de que existe outro concorrente, bem mais difícil: o celular no bolso de quem passa.

Tenho a sensação de que, mesmo em lugares de muito movimento, muita gente caminha com entretenimento fácil e rápido ao alcance da mão. Não preciso convencer a pessoa a ter algo para fazer. Ela já tem. Preciso convencê-la a parar de fazer o que está fazendo para olhar para mim. E o que está no celular foi desenhado para ser sedutor.

Onde isso pesa mais

Minha hipótese é que essa disputa fica mais dura nos espaços que não foram pensados para o lazer. O Calçadão, que tratei no diário anterior, é o exemplo. A pessoa está ali com um objetivo e, nos intervalos, está no celular. Não está disponível para um espetáculo.

Já nas feiras noturnas e na Barragem, que são lugares onde as pessoas vão para passear, a atenção parece mais aberta. A pessoa foi até lá para ficar, e o espetáculo é mais um motivo para ficar. É uma impressão, e as práticas que fiz não bastam para comprovar isso. No relatório, registrei que nas práticas observei a receptividade do público, o tempo de permanência das pessoas e a formação natural da plateia. Mas não anotei de forma sistemática quantas pessoas estavam com o celular na mão.

O que o palhaço pode fazer

A palhaçaria tem uma vantagem que a tela não tem: o encontro. O público não é espectador de algo pronto. Em “Subsolos”, ele escolhe os caminhos dos números e ajuda na cena. O espetáculo “não começa nunca”, e a relação se constrói de pessoa a pessoa, desde o primeiro “boa tarde”. Quem está na rua pode ir embora a qualquer momento, e o jogo é fazer com que fique.

Esse jogo é difícil quando o rival é a tela. E nesse lugar, faz-se ainda mais necessário o uso de algumas tecnologias e infraestrutura. Nos relatórios, registrei que passei a usar sonorização de voz e trilha sonora, como estratégia para ampliar a atividade e o alcance, não somente os instrumentos sem amplificador e no “gogó”, como no começo. A forma de abordar o público no início sempre faz diferença, e que cada tipo de espaço pede uma estratégia.

Não sei dizer se essas escolhas foram suficientes. Ainda é cedo para afirmar o que funciona melhor.

Uma dúvida que fica

Fico pensando se a resposta é competir com a tela ou criar um tipo de encontro que ela não oferece. A graça de um palhaço de rua talvez esteja no que o celular não faz: olhar nos olhos, errar na hora, responder a quem está ali.

Mas também sei que isso é uma explicação que me conforta. Preciso olhar para as plateias que não pararam, e não só para as que ficaram.

O que fica para os próximos diários

  • Se o horário e o tipo de lugar ajudam a pessoa a estar disponível.
  • Se vale a pena registrar, nas próximas saídas, quanto tempo a plateia fica e quantas pessoas desistem.
  • Como as feiras noturnas e a Barragem podem ser um caminho para esse encontro.
Foto de Fábio Alcover

 

*Projeto Patrocinado pelo Programa Municipal de Incentivo à Cultura – PROMIC | Projeto Subsolos (PROMIC nº 24-035), Londrina/PR

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