Diário de Bordo nº 5:
A cidade que usamos e a cidade que falta

Diário de Bordo nº 5: A cidade que usamos e a cidade que falta

Projeto Subsolos (PROMIC nº 24-035), Londrina/PR

Este é o último diário. Como nos outros, escrevo a partir do que vi nas visitas e nas práticas. São hipóteses de um artista de rua, sem rigor científico. Não fiz uma pesquisa sobre políticas públicas de espaços urbanos em Londrina, e pode haver programas e planos que eu desconheço.

A pergunta que ficou

Nos quatro diários anteriores, falei de calor e chuva, do Calçadão, da disputa de atenção e dos novos lugares. Em todos eles, voltou uma mesma pergunta: que cidade estamos oferecendo para quem quer ficar na rua?

Quando escrevi o projeto, citei o Direito à Cidade como horizonte, a ideia de que a população exerce sua cidadania ao fruir o espaço público. Também apontei que a proposta ia ao encontro das reformas e adequações de espaços da gestão, como o programa Londrina Linda. Ao fim da pesquisa, vejo que o caminho entre a intenção e o que encontrei na rua é maior do que eu imaginava.

O que procurei, e o que encontrei

Em cada visita técnica, observei o mesmo conjunto de coisas: sombra, bancos, tomadas, água, banheiros, fluxo de pessoas e facilidade de chegar. Eram as perguntas que tínhamos prometido responder no projeto.

Minha impressão geral, e é só uma impressão, é que há pouco ou quase nenhum espaço em Londrina que pareça pensado e revisado para o uso, o lazer e a fruição da população. Os espaços são ocupados de maneira orgânica. As pessoas vão às praças e aos parques mesmo sem programação artística ou esportiva proposta pela gestão. A cidade é usada, com ou sem convite. Mesmo em espaços como o Zerão, o que se vê é o espaço presente mas sem incentivo nenhum além da sua própria existência. Assim estão outros espaços, como Jardim Botânico, Bosque Central etc.

Alguns exemplos do que vi, ou tenho a impressão de ter visto:

  • Bebedouros, torneiras ou chuveiros que faltam em muitos lugares. Quando existem, não aparentam ter cuidado ou monitoramento que passe a imagem de que o uso é seguro e saudável.
  • Falta de sombra. No relatório, registrei que o Aterro do Igapó não tem sombra capaz de reunir pessoas, e que o Ribeirão Cambezinho tem falta de manutenção que dificulta o uso para atividades culturais.
  • Árvores. Tenho a impressão de que muitas vezes se priorizam plantas ornamentais, que dão beleza mas pouca possibilidade de acomodar alguém. Uma árvore de sombra leva anos para crescer. Não vejo sinais de que esse plantio esteja sendo pensado a longo prazo, mas posso estar errado.
  • Energia elétrica. Para fazer um espetáculo com som, preciso de tomada ou de equipamento próprio. Não encontrei espaços construídos com essa previsão, nem acesso facilitado à energia. Em lugares como as feiras, isso fica ainda mais claro.

O que isso significa para o espetáculo

Para quem faz arte de rua, essas faltas viram trabalho extra. Levo meu som, escolho o horário pela sombra, procuro quem libere uma tomada, penso num plano B para a chuva. Tudo isso é possível, mas fica por conta do artista.

Mais importante, essas faltas não afetam só o artista. Afetam quem está na plateia. Uma pessoa idosa, uma criança, uma família que quer ficar na praça precisa de sombra, água e banheiro. Se a cidade não oferece isso, o espaço fica menos acessível para quem mais precisaria dele.

Uma hipótese sobre política pública

Minha hipótese é que a atividade artística ao ar livre ainda não aparece como parte do planejamento dos espaços públicos de Londrina. Enquanto isso, ela depende de editais, de iniciativas individuais e de boa vontade. Isso não é uma crítica a ninguém em particular. É uma constatação de quem tentou usar a cidade como palco e percebeu que a cidade não foi desenhada para isso.

Se estiver certo, o caminho passa por pensar a arte de rua como parte do uso cotidiano da cidade. Na prática, isso significa espaços com sombra, tomadas, água, banheiros e alguma previsão de apresentações. Não sei quais seriam os passos concretos, e esta é uma conversa que depende de muitas pessoas.

Para fechar a série

Este diário encerra a série prevista no projeto. Cada texto buscou deixar registrado o que vi, sempre como hipótese. Se alguma coisa aqui ajudar outras artistas e outros artistas que queiram ocupar os espaços da cidade, o projeto terá cumprido uma parte do que prometeu.

Foto de Fábio Alcover

 

*Projeto Patrocinado pelo Programa Municipal de Incentivo à Cultura – PROMIC | Projeto Subsolos (PROMIC nº 24-035), Londrina/PR

Triolé Zap

Mande uma mensagem para o Triolé Zap e receba a Programação da Vila Triolé diretamente no seu celular. Escreva para (43) 9 8808-8931.

Programação Vila