Diário de Bordo nº 1:
Sol, chuva e a cidade que não nos espera
Este é o primeiro dos cinco diários de bordo prometidos no projeto. Quero deixar claro desde já que escrevo como artista de rua. Não sou pesquisador do clima nem urbanista. O que está aqui são observações de quem esteve na rua e algumas hipóteses que ainda preciso testar. Não há rigor científico, e posso estar enganado em várias delas.
O que aconteceu na rua
Fizemos as práticas de pesquisa entre janeiro e fevereiro de 2025. Foram sete práticas, em locais como o Calçadão, a Barragem do Lago Igapó, a Praça do Aeroporto e feiras noturnas. Desde o início, o clima apareceu como um dos principais desafios. Nos relatórios parciais, registrei a dificuldade de apresentar em dias de calor intenso, principalmente em locais sem sombra. Registrei também que a chuva impediu algumas apresentações previstas.
No pedido de alteração de junho de 2025, expliquei que, por causa do tempo chuvoso em alguns dias de fevereiro e março, até aquele momento só tínhamos feito 7 das 10 práticas previstas. Ou seja, o tempo mudou o cronograma da pesquisa.
Também mudou escolhas de lugar. Troquei o Aterro do Igapó pela Barragem porque o Aterro não tem sombra capaz de reunir pessoas. O público ficava espalhado numa área grande e descoberta. Na Barragem, a sombra ajudou a plateia a se formar.
Houve ainda o caso da Vila Triolé, em 13 de abril de 2025. Por causa da previsão de chuva para o dia e o horário, o espetáculo foi feito no espaço interno. Foram cerca de 20 pessoas. Não sei dizer quanto dessa baixa presença foi por causa da chuva. Pode ter pesado a divulgação, o dia ou outra coisa. O que sei é que a previsão nos tirou da rua.
Minha primeira hipótese: o tempo está mais difícil de prever
Tenho a impressão de que o calor intenso e a chuva forte, sem muito aviso, atrapalham cada vez mais quem trabalha ao ar livre. Não tenho dados para afirmar que isso se deve às mudanças climáticas. É uma percepção de quem precisa decidir, em cima da hora, se monta ou não monta o cenário. Muitas vezes essa decisão se faz olhando o céu e o celular.
Para um espetáculo de rua, isso pesa. A rua é nosso teatro, mas ela não tem teto. Se o público não vem, o espetáculo não acontece. Se o artista aposta na chuva e perde, o equipamento de som molha e a plateia sai correndo. Não vejo como resolver isso só do lado do artista.
Segunda hipótese: a cidade não está preparada para esse clima
Nas visitas técnicas, olhei para sombra, bancos, tomadas, água e banheiros. Nos relatórios, registrei que alguns espaços abertos, como o Ribeirão Cambezinho, apresentaram desafios por falta de manutenção. Registrei também que a sombra é fator decisivo para a formação da plateia.
Minha hipótese é que o problema não é só o artista enfrentar o tempo. É a cidade também não oferecer abrigo para o público ficar. Se não há árvores que deem sombra, cobertura ou um lugar onde se refugiar da chuva, a pessoa evita ficar na rua. E se ela não fica na rua, a rua deixa de ser espaço de convivência, e o espetáculo perde o público.
Não pesquisei se a prefeitura tem algum plano para adaptar os espaços públicos ao calor e às chuvas. Também não sei se há programas de plantio ou de abrigos em andamento. Não quero afirmar que não existem. O que posso dizer é o que vi nos lugares por onde passei: sombra escassa em alguns pontos e pouca estrutura de abrigo.
Um incômodo honesto
Esta pesquisa nasceu da defesa da rua e do espaço público. Mas parte dos nossos espetáculos acabou acontecendo em espaços fechados: a escola e a Vila Triolé. Foram espetáculos bons, e a escola recebeu cerca de 400 pessoas. Ainda assim, fico pensando se, ao buscar abrigo, estamos nos afastando justamente do espaço que queremos ocupar.
Não tenho resposta. Por enquanto, entendo que ter um plano B coberto é parte do trabalho de quem faz arte de rua em Londrina. Mas também entendo que isso pode ser sinal de que a cidade ainda não nos acolhe.
O que fica para os próximos diários
- Se a escolha de horário (manhã, fim de tarde, noite) ajuda a fugir do calor.
- Se espaços noturnos, como as feiras, escapam do sol forte.
- Quais estruturas mínimas (sombra, energia, abrigo) o poder público poderia garantir.

*Projeto Patrocinado pelo Programa Municipal de Incentivo à Cultura – PROMIC | Projeto Subsolos (PROMIC nº 24-035), Londrina/PR
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