Diário de Bordo nº 2:
O Calçadão do centro ainda é opção?

Este é o segundo diário. Vale o mesmo aviso do primeiro: o que escrevo aqui são observações de quem esteve na rua e hipóteses que ainda estou testando. Não há rigor científico nesta análise. Posso estar errado, e gostaria que outras pessoas que ocupam o Calçadão me contassem o que veem.

De onde partimos

Quando escrevi o projeto, o Calçadão era peça central. Ele aparecia entre os locais das apresentações completas e das práticas de pesquisa. Na justificativa de público, escrevi que o Calçadão conta com um público passante imensamente maior. A minha aposta era simples: onde passa muita gente, o palhaço encontra plateia.

Fizemos uma visita técnica ao Calçadão e duas práticas de pesquisa, em 24 de janeiro e em 8 de fevereiro de 2025. Segundo meus registros, as práticas reuniram cerca de 120 e 130 pessoas. Se minha conta de calendário está certa, a primeira foi numa sexta-feira e a segunda num sábado. O registro das práticas me deu uma pista, mas não uma resposta.

O que os números dizem, e o que não dizem

Nos relatórios, anotei que o Calçadão, a Barragem e as feiras tiveram os melhores resultados de público e interação. Então a primeira surpresa é esta: em número, o Calçadão não foi mal. Os 120 e 130 do Calçadão ficaram na mesma faixa dos 135 da Feira da SABBI e dos 160 da Feira do Tokio.

Mas são só duas práticas no Calçadão. Eu não registrei a contribuição espontânea do público, nem quanto tempo cada pessoa ficou. Sem esses dados, não consigo dizer se a plateia do Calçadão é uma plateia que fica ou uma plateia que passa. Minha hipótese nasce de uma sensação, e não de uma medição.

Primeira hipótese: o centro mudou de uso

Tenho a impressão de que o centro mudou. Antes, parece que mais gente ia ao Calçadão para passear, olhar vitrines, “dar uma olhadinha”. Hoje parece que muita gente vai ao centro com um objetivo firme: comprar o que precisa e ir embora. Quem anda com pressa para uma compra dificilmente para para ver um palhaço.

Penso que isso muda em períodos de festa, como o fim de ano, e talvez aos sábados, quando há mais gente circulando sem pressa. Foi num sábado que tivemos o maior número entre as duas práticas no Calçadão, mas é só um dado, e pode ser coincidência.

Segunda hipótese: faltam estruturas de permanência

Tenho a lembrança de que o centro já teve mais estrutura para receber as pessoas, como quiosques maiores, com mesas no calçadão, onde se tomava um café ou uma bebida e se ficava um tempo. Não pesquisei a história desses espaços e posso estar lembrando de forma imprecisa. Mas, se for verdade, parte do público que ficava por ali tinha um motivo para ficar. Sem ele, a plateia se forma mais devagar.

Terceira hipótese: a lei existe, mas pouca gente a conhece

Há uma lei do artista de rua que permite ocupar o espaço público. Ela existe, mas ouvi relatos de artistas que ainda atuam no Calçadão, e de pessoas que moram na região, de que ela não é amplamente conhecida pelos agentes de segurança. Isso significa que o artista pode ter de explicar e defender o seu direito antes de começar.

Esses são relatos que ouvi, e não algo que eu tenha medido. Também não estou dizendo que a lei não funciona. Estou dizendo que, para quem trabalha na rua, a insegurança de ser abordado pode pesar na hora de escolher o lugar.

Então, o Calçadão ainda é opção?

Hoje, minha resposta é: talvez, mas não como aposta principal. Ele continua com muito movimento, e os números das práticas não me deixam descartá-lo. Mas as três hipóteses acima me fazem pensar que o Calçadão pode funcionar melhor em dias e horários específicos, como sábados e períodos de festa, do que como lugar de circulação regular.

Foi isso que me levou a olhar com mais atenção para as feiras noturnas e para a Barragem, que serão tema de um dos próximos diários.

Foto de Fábio Alcover

 

*Projeto Patrocinado pelo Programa Municipal de Incentivo à Cultura – PROMIC | Projeto Subsolos (PROMIC nº 24-035), Londrina/PR

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